Mártires de Carral recebérom a homenagem
independentista onde se batérom até o final
   

  Causa Galiza fijo onte umha singela homenagem aos Mártires de Carral no mosteiro onde resistírom às tropas espanholas do general Gutiérrez de la Concha em 1846. O ato consistiu em duas breves intervençons reproduzidas a continuaçom. Umha, em chave histórica, pondo em valor a significaçom política daqueles acontecimentos pouco conhecidos, e outra, política. Ambas lêrom-as, respetivamente, o companheiro da Mesa Nacional Óscar Gomes e o nosso porta-voz Henrique Torres.

 

 

   Intervençom histórica

 

   O século XIX é fundamental para compreender a História da Galiza contemporánea. Nele, à vez que se sentam as bases do moderno Estado unitário espanhol, que combate a existência deste país e saqueia sistematicamente os seus recursos e destrói também sistematicamente a sua identidade, inicia-se o processo de auto-afirmaçom e auto-organizaçom coletivas que, através de fases que hoje conhecemos como “provincialismo”, “regionalismo”, “nacionalismo” e “independentismo”, perfilará um horizonte coletivo de emancipaçom nacional e social para a Galiza.

 

   Situemo-nos no tempo: antes dos acontecimentos que rematam com os fusilamentos em Carral, o Reino de Espanha, onte como hoje ao serviço dumha oligarquia parasitária, varria o que ficava do antigo Reino da Galiza fundado no século V, impunha umha Divisom Provincial copiada da do imperialismo francês, estendia o ensino obrigatório em espanhol, constituia a Guardia Civil como corpo repressivo estatal e aplicava múltiplas políticas arancelárias e tributárias que sacrificárom os interesses e anulárom a soberania do povo galego com a imposiçom dumha emigraçom maciça: calculam certos historiadores que, no século XIX, por volta de um miliom de compatriotas se convertérom em exiliados por motivos económicos num país que nom superava os dous milions de habitantes.

 

   É neste contexto de extorsom planificada do nosso país que devemos enquadrar os factos históricos e as mulheres e os homes que hoje aqui homenageamos.

 

   Em 2 de abril de 1846, subleva-se em Lugo o batalhom de que é coronel Miguel Solís y Cueto. O levantamento disolve a Deputaçom e o chamado Consejo Provincial, ambos de recente criaçom da mao do processo de construçom do Estado unitário.

 

   Em dias posteriores, erguem-se também Vigo, Túi, Ponte Vedra, Compostela e noutras vilas e cidades da Galiza como Noia, Rianxo, Baiona, Guarda, Caldas de Reis, etc. constituem-se juntas revolucionárias.

 

   Nesta altura, a raínha espanhola é umha menor de idade de 13 anos chamada Isabel II e preside o Governo espanhol um ditador conhecido como General Narváez.

 

   Os soldados levantados em armas na Galiza para, segundo afirmavam no jornal La Revolución, tirar o país da sua “humilhaçom e abatimento” e lograr que deixasse de ser umha “verdadeira colónia da Corte” espanhola contam com umha importante base popular de apoio consciente do processo de pauperizaçom e perda de soberania que vive o país.

 

   É essa base social de apoio que, auto-organizando-se à margem do Estado, igual que figera para combater, e vencer, as tropas francesas em 1809, constitue em 15 de abril o Exército Libertador da Galiza e a Junta Superior del Reino de Galicia, que reivindica os direitos conculcados, as liberdades suprimidas pola ditadura de Narváez e distintas medidas que tenhem como denominador comum favorecer os interesses nacionais e populares galegos. Esta Junta Superior del Reino de Galicia presidem-a Pio Rodrigues Terraço e Antolim Faraldo, que tempo atrás constituiam círculos proto-nacionalistas em que se debatia sobre a emancipaçom da mulher, o socialismo de Fourier ou a pena de morte.

 

   O levantamento militar e a sua trama social de apoio fam saltar os alarmes em Madrid, que desloca um corpo de Exército para combater os sublevados. Após distintas batalhas, o enfrentamento final produz-se perto donde estamos, em Cacheiras, onde as tropas do coronel Solís som esmagadas polas tropas espanholas, muito superiores numérica e armamentisticamente.

 

   Solís e os seus homes retrocedem defendendo-se face Compostela, tratando de conter as tropas enviadas desde Madrid, às que se lhe prometera o livre saqueio e pilhagem da nossa capital em caso de ganharem a batalha como de facto aconteceu. Os últimos resistentes refugiam-se neste mosteiro, enquanto se desenvolve umha batalha campal em toda a cidade, rua por rua, casa por casa, que provoca centenas de mortos e mortas. Esgotada a muniçom dos refugiados em Sam Martinho Pinário, estes entregam-se às forças espanholas e pactuam os termos da rendiçom entre os que figura a celebraçom dum juízo na Crunha.

 

   Aqui chega a recta final deste relato que aguardamos se grave na memória de todas e todos nós e se projete no futuro: temerosos da cumplicidade do povo galego, que fora capaz de derrotar o invassor francês com os seus próprios recursos militares e organizativos só 38 anos antes, os soldados do general espanhol que vence em Cacheiras, Gutiérrez de la Concha, decidem violar os pactos acordados, baixam em Carral os militares galegos quando os levavam face a Crunha, submetem-os a um juízo sumaríssimo e fusilam-os na Fraga do Rei e contra os muros da igreja de Paleo.

 

   Evidencia da brutalidade com que se desenvolve este último episódio é o selvagismo das tropas espanholas em Compostela, estrando a cidade de cadáveres, mas, afinal, a própria cena do fusilamento: os dirigentes militares galegos som assassinados disparando-lhes ao rosto para que fiquem irreconhecíveis. Serám enterrados, como aceno de despreço, em foxas comuns sinalizadas por lousas de granito em que aparece umha caliveira, como signo que indica que se tratava de pessoas irreconhecíveis, ou às que ninguém reclamava. O párroco de Paleo, contra cuja igreja som executados os militares galegos, define literalmente aquela cena como “espetáculo horroroso”.

 

   À derrota militar galega segue umha vaga repressiva que provoca detençons e o exílio de centenas pessoas que cruzam o Minho face Portugal, ou se embarcam face o exterior desde os portos galegos. No entanto, a derrota daquel levantamento provincialista, que de modo primário e intuitivo reivindicava a liberdade da Galiza, bota as sementes necessárias para o crecimento da reivindicaçom nacional galega.

 

   Neste sentido, em termos históricos, 1846 é o pistoletaço de saída para um processo coletivo que hoje continua e, nalgum dia, rematará com a independência nacional da Galiza. Porque eles e elas fôrom, nós seremos e trunfaremos.

 

Muito obrigado a todos e todas

 

Viva a Revoluçom Galega de 1846!

 

 

  Intervençom política

 

    Bem-vindas e bem-vindos a todas e todos.

 

   Reunimo-nos hoje aqui para comemorar o movimento revolucionário que tivo lugar na Galiza em abril do 1846 contra o regime espanhol quando diferentes setores do povo galego se levantam em armas contra a dependência política do país e o espólio das suas riquezas, assim como para salvaguardar a entidade nacional galega.

 

   Em especial, hoje lembramos Antolim Faraldo, nascido 1822 em Betanços numha família humilde. Ligado ao mundo das letras e o jornalismo, a maioria da sua obra e trabalho estivo ao serviço da redençom e libertaçom da Galiza. Foi uns dos principais inteletuais implicados no levantamento tendo que exiliar-se em Portugal para evitar o assassinato umha vez fracasada a revoluçom.

 

   É importante reconhecer estes factos históricos e os seus participantes, dando-lhe o tratamento e relevância que merecem na história dumha naçom que quer sair do assovalhamento imposto, já que som factos que criam orgulho e som semente e história das futuras galegas e galegos. Nestes dias de campanha, umha mulher relatava-nos a sua indignaçom por desconhecer os factos históricos que aqui homenageamos.

 

   É importante reconhece-los porque botam abaixo a imagem inculcada polos temerosos desta naçom de povo submisso e domesticado, é importante, também, porque temos que rachar com essa traidora historiografia oficialista que oculta e falsifica a nossa própria história e interesses, relegando-nos a ser um apéndice na pseudo-história doutro país.

 

   Como dizia Antolim Faraldo “Galiza, arrastrando até aqui umha existência oprobiosa, convertida numha verdadeira colónia da Corte, vai-se erguer da sua humilhaçom e abatimento”. Passárom os anos e os séculos e esse tratamento colonial da Galiza aumentou a sua intensidade. As palavras do há pouco desaparecido Eduardo Galeano definindo o colonialismo lembram-nos infelizmente a realidade da Galiza que com esforço queremos mudar: “O colonialismo visível mutila-te sem dissimulo: proibe-te dizer, proibe-te fazer, proibe-te ser. O colonialismo invisível, em cámbio, convence-te de que a servidume é o teu destino e a impotência a tua natureza: convence-te de que nom podes dizer, nom podes fazer, nom podes ser”.

 

   Hoje, num tempo em que este colonialismo se gava da sua fortaleza, condenando ao desemprego, a emigraçom e a miséria milhares de galegas e galegos e saqueando o nosso território, e quando proliferam experimentos políticos e eleitorais que asseguram que a nossa questom nacional é um assunto intrascendente, nós, Causa Galiza, achamos imprecindível fazer um trabalho pedagógico sistemático de consciencializaçom nacionalista do povo galego, porque só é possível que trunfe o processo de libertaçom nacional sobre o substrato dum povo politizado e organizado.

 

   Mas nom se trata apenas da tomada de consciência que o processo independentista se torna viável: igual que figérom quem luitárom em 1846, hoje, as galegas e galegos devemos construir desde agora poderes populares efetivos e quotidianos através da auto-organizaçom e do conflito permanente com os poderes políticos, económicos, mediáticos e repressivos que nos assovalham. É precisamente na luita, no conflito real e socialmente vivido, onde a tomada de consciência e o fortalecimento do músculo popular alcançam os seus máximos níveis. Esta é a nossa aposta: auto-organizarmo-nos para o conflito com Espanha.

 

   Neste sentido, lançamos-vos hoje a todas e todos um convite e um repto: construir o projeto político do independentismo como parte inseparável da auto-organizaçom deste povo. Digamo-lo claramente, companheiros e companheiras: o nosso movimento de liberaçom nacional necessita um projeto político forte, liberado da tentaçom tam cómoda como inofensiva de habitar a marginalidade, assentado fortemente no território e comprometido a impulsionar um processo de rutura com Espanha a meio e longo prazo.

Para conquistar a vitória, e isso sabiam-o os rebeldes de 1846 que aqui resistírom, necessita-se entrega militante, disciplina coletiva, recursos económicos, formativos e comunicativos, táctica e estratégia e um patriotismo popular disposto a salvar todos os obstáculos e sabedor de que o conflito de projetos políticos é o único caminho possível.

 

   Com humildade, mas com firmeza e decisom, frente a estes muros atesouram umha história negada e falsificada, renovamos o compromisso anunciado aqui mesmo em 2007 de construir umha ferramenta política ampla e útil para lograr que a nossa Terra seja, como reivindicava Antolim Faraldo, “temida e respeitada”.

 

Sem mais, agradecer a vossa assistência a todas e todos os presentes.

Vivam os Mártires de Carral!


Viva Galiza ceive!