Henrique Torres, o nosso novo porta-voz nacional, responde umha extensa entrevista

Nesta semana, Henrique Torres, foi eleito pola nossa Assembleia Nacional como novo porta-voz nacional de Causa Galiza. Nascido em Ponte Vedra em 1980, o nosso companheiro participa desde há anos em diversas iniciativas políticas e sociais do independentismo e foi liberado durante um ano no centro social Revira da sua cidade.

Recentemente Causa Galiza finalizou o processo para se constituir como organizaçom política. Qual é a avaliaçom que fazedes do mesmo?

O processo foi muito positivo para atualizarmo-nos e resetearmo-nos coletivamente a respeito do cenário onde vamos operar. Há que dizer, como principal peja, que se prolongou mais do desejado polas fraquezas organizativas derivadas, por umha parte, da difícil situaçom em que fica esta iniciativa popular após a implosom de 2012 e, por outra, da desatençom do independentismo histórico para o seu próprio fortalecimento organizativo em aras de potencializar os espaços de convergência.


Contodo, esta é já umha etapa fechada e agora toca olhar para adiante, arregaçar-se, sentar os cimentos da Organizaçom, apresentar o projeto no País, incorporar militáncia e começar a trabalhar. O tempo do debate acabou, o corpo de militantes que participou no processo sai clarificado e coeso e, ainda que este tipo de declaraçons sejam prototípicas após qualquer processo constituinte e, portanto, concitem pouca credibilidade, a verdade é que a militáncia comprometida no projeto está motivada, com vontade de ir em frente e pôr-se ao dia com o País. Aí estamos agora.


Por que achades necessário dar esse passo? Há sítio para mais umha organizaçom política no povoado campo da esquerda nacional?

Este passo foi necessário por múltiplos motivos. O primeiro e elementar foi porque Causa Galiza, já reduzida apenas à corrente do independentismo histórico após os sucessivos abandonos, perdera a sua funcionalidade original, que era desde 2007 articular umha batalha de certas dimensons contra a reforma estatutária que se gestava na altura, fomentar a unidade de açom entre os agentes políticos independentistas e, se calhar, de amadurecerem as condiçons, avançar face à construçom dum referente político independentista suprafracional. É óbvio que nada disso se conseguiu, ou só se conseguiu em parte. E também é óbvio que, apesar dos esforços e da flexibilidade postos ao serviço deste objetivo, nom existiam condiçons para materializar o que era um desejo generalizado nas bases sociológicas do independentismo. A evoluçom posterior dos distintos agentes acho que é suficientemente clarificadora para explicar por que nom foi fatível.


Assim as cousas, a nossa corrente, que se debilita nestes processos –em parte, pola implosom da estratégia unitarista; em parte, pola erosom que provoca o debate sobre o papel da política na estratégia de liberaçom nacional e, em parte, polos efeitos dumha repressom que é mais forte que a que suportam outros sectores nacionalistas- vê-se na tessitura de se reorganizar políticamente se pretende incidir na realidade do País. E essa necessidade percebida por nós deriva da diagnose que fazemos do campo nacionalista, com umha posiçom prudente ou cética a respeito da viragem soberanista do BNG; a avaliaçom de que o projeto Anova é mais do errático beirismo de sempre, agora com retórica radical de temporada; o rechaço da evoluçom face o espanholismo de setores que assumem a chamada Posiçom Luís Soto e, finalmente, a avaliaçom de que o projeto político surgido do Processo Espiral é um projeto com limitaçons genéticas para catalisar um processo de acumulaçom de forças independentistas.


O que pretendemos entom com a nossa articulaçom como organizaçom política? Pois estruturar a nossa corrente, dotarmo-nos dumha ferramenta que nos ponha em condiçons de incidir na realidade e traçar umha estratégia independentista própria, libertada dos lastros da correçom política e do radicalismo ideologista.


A respeito da segunda pergunta: é evidente que a gente está farta de frustraçons políticas. Olhando para o retrovisor, contemplamos como desde a Transiçom espanhola até o presente som múltiplos os projetos políticos independentistas que experimentam um ciclo de constituiçom, ascenso e dissoluçom, ou desorientaçom. Se bem é certo que, sem eles, o presente nom seria o que é, também podemos afirmar que a dificuldade demonstrada para consolidar um projeto político e um movimento independentista estáveis e referenciais, foi umha fonte permanente de desafeiçons e deserçons e apontoou as vias reformistas. No entanto, da nossa ótica, existe um espaço sociopolítico no campo nacionalista que encarna umha concepçom hard do que deve ser o processo de libertaçom nacional, que é claramente rupturista colocando a centralidade dos seus esforços na soluçom da questom nacional e que carece de expressom política. Essa é a funçom que, com a prática e o veredito postivo da militancia independentista, pretende cumprir agora Causa Galiza


Quais serám as principais linhas de atuaçom de Causa Galiza, umha vez redefinida como organizaçom política?

O primeiro é a preparaçom da ferramenta. Necessitamos um instrumento político de intervençom que supere a indisciplina e a laxitude do passado recente. Sem esse instrumento é impensável darmos passos qualitativos. Por outra parte, estám os processos de unidade de açom entre forças soberanistas e independentistas, ainda muito limitados polas indecisons de que falava antes e o seu constrangimento a certas esferas simbólicas ou discursivas. Num terceiro nível, sem que suponha ordem de prioridades, está a própria situaçom do independentismo como movimento diferenciado do nacionalista hegemónico. Aqui temos que falar ainda em minorizaçom. Neste sentido, estando cientes de que existem diferenças políticas e ideológicas com NÓS-UP, na nossa constituinte tomamos a decisom de abrir um canal de comunicaçom permanente com esta formaçom para procurar a unidade de açom nas questons pontuais que forem possíveis, quer dizer, priorizar a açom sobre a colocaçom das diferenças objetiváveis num primeiro plano. Do debate destes meses resolve-se, por exemplo, que “é necessário fomentar a mestizagem na rua entre setores independentistas, o diálogo normalizado e o debate”. Finalmente, a Organizaçom marca-se como objetivos ser um catalizador da auto-organizaçom do povo galego, sem a que é impensável o sucesso estratégico dum processo independentista, a potencializaçom dos procesos formativos na militancia ou a intensificaçom do nosso compromisso interno e externo com a luita feminista.


A um nível “mais fracional”, por dizê-lo dalgum modo, de corrente, achamos que é necessário avançar, a partir do respeito para a autonomia das partes, numha maior interrelaçom, conhecimento mútuo e, inclusive, fixaçom de reptos comuns num universo que compartilha.


Em relaçom com a situaçom da esquerda patriótica: como avalia Causa Galiza o contexto atual? E o do independentismo?

Achamos que o contexto atual está inçado de possibililidades e potencialidades. Por umha parte, aquelas ilusons de um soberanismo progressivo face as que derivara boa parte do nacionalismo galego ficárom abeiradas e desbotadas. Isso é positivo. Essa posiçom, hoje, é indefendível abertamente. É mais evidente do que sempre que nom existe umha via legal para desenvolver o nosso projeto nacional e alcançar a sua plenitude. Isso fai com que ideias-força como unilateralidade, centralidade da auto-organizaçom popular, necessidade de construir um conflito com o Estado, estender a consciência nacional, relativizar a importáncia da luita eleitoral e institucional, construir redes de contrapoder social, etc. sejam ideias que cobram mais valor do que no passado em termos de traçar umha estratégia independentista ampla.


O panorama, digamos, a esse nível, clarificou-se, embora as limitaçons objetivas para avançar sejam evidentes. O que se passa? Da nossa ótica, que a clarificaçom do panorama e das orientaçons estratégicas para o nosso processo de liberaçom nacional nom vai acompanhada por todas as partes dumha prática coerente nesse sentido. De pouco sirve assinalar, por exemplo, que o quadro estatutário está finiquitado, que por ai nom existe umha via de saída de Espanha, etc., se isso logo nom se complementa depois com umha prática coerentemente ruturista. Essa é a posiçom ambígua na que, da nossa ótica, está o BNG: veu fechada a porta, veu que o Estatuto de Nación dentro do quadro constitucional era inviável incluso como estratégia “pragmática”, veu como se afundia a estratégia quintanista, etc., mas nom remata por encarreirar-se por umha via alternativa que, necessariamente, é a longo prazo e pivota sobretodo sobre o poder da rua e a utilizaçom das instituiçons como alavanca desse poder. Estamos cientes de que muita militáncia nacionalista sim aposta com honestidade nessa direçom independentista, mas a interrogante está em se a atual radicalizaçom decidida pola direçom do BNG é tática, de oportunidade, ou se por contra se vam implementar outras vias coerentes com a ideia básica de que com Espanha nom temos nada que fazer além de empobrecermo-nos e extinguir-nos como naçom. Nós, neste sentido, percebemos ainda muita indecisom e muitas contradiçons e, desde a humildade das nossas forças, mas com conviçons fortes, estamos à expetativa à vez que tratando de desenvolver o nosso próprio caminho.


A respeito da situaçom do independentismo, valorizamos que tem um algo de paradoxal: por umha parte, é evidente que nunca houvo tantos e tantas independentistas no nosso país e que os velhos complexos do nacionalismo hegemónico, que levavam a ocultar ou maquilhar esta condiçom, vam-se debilitando. Ai está a foto do passado 24 de julho, com umha mobilizaçom juvenil independentista amplíssima que evidencia que, com todas as contradiçons que se queram assinalar, há umha nova geraçom que rechaça o minimalismo nacionalista. Isto parece-nos muito positivo. Aliás, é evidente a pegada independentista em distintas dinámicas como a reivindicaçom lingüística, os centros sociais, a reivindicaçom de seleçons nacionais, a luita contra a repressom, etc. No entanto, as dificuldades para articular políticamente este estado de opiniom, dar-lhe formato de movimento e articulá-lo numha estratégia concreta seguem a ser evidentes e abandonar a minorizaçom vai requerir tempo e esforços.


A respeito das próximas eleiçons europeias (umha das questons que mais influiu no debate político dentro da esquerda nacional nos últimos meses), que posiçom tendes?

Como che dizia, nom somos abstencionistas por principio, mas relativizamos a importáncia que, por vezes, se dá a estas questons mesmo nos sectores ruturistas do nacionalismo. Parece-nos significativo que se conceda tanto tempo e esforços a este processo quando, como estava a dizer, nom é no ámbito institucional -e muito menos, no ámbito europeu!-, onde se vam dar passos significativos num processo de rutura com Espanha. Ou o plano institucional está subordinado a umha estratégia real, quotidiana, vertebrada socialmente, etc. de conflito e rutura a longo prazo com Espanha, ou estamos a fazer teatro e representaçom. Neste sentido, achamos que, em demasiadas ocasions, infelizmente, para além de retóricas, está-se a tratar de compensar com projeçom eleitoral e institucional umha fraqueça na vida real que nom se solventa por essa via. Afortalar o independentismo como projeto e estratégia depende mais dum trabalho coletivo de formigas que de certos eventos aparentemente “fulcrais”. Que este desajuste se produza quando se nega abertamente, no discurso, a existência dumha via institucional à independência, quando se relativiza a importancia dessas instituiçons, etc., parece-nos preocupante.


Por outra parte, há um facto que, sendo permissivas, deveriamos qualificar de simpático, embora é umha expressom clara dum déficit de auto-estima política ou falta de afirmaçom: o independentismo basco histórico, o MLNB, ao que reconhecemos e com o que nos identificamos desde sempre, nom é o factor que outorga legitimidades nem labeles de qualidade neste país. A condiçom ruturista da estratégia nacionalista galega, ou nasce de si própria, do reconhecimento que dela faga o nosso povo e da sua capacidade de prender nele, ou nom há elemento externo que a certifique. Neste sentido, por comentar, pareceu-nos significativo que muit@s militantes respirassem satisfeitos/as e convencidos/as de fazerem parte dum projeto revolucionário... polo facto de se coaligarem com Bildu. A respeito da convocatoria de maio, Causa Galiza proporá liberdade de voto ou abstençom à militancia independentista, trazendo em conta que as alianças eleitorais e/ou organizativas com o espanholismo som naturalmente inaceitáveis.


Como analisa Causa Galiza a situaçom do País neste momento histórico? Quais deveriam ser, do vosso ponto de vista, as prioridades para os setores e pessoas que se movem em chave de libertaçom nacional e social?

Historicamente, é bastante comum fazer a apreciaçom, por parte dos sectores patrióticos, de que a Galiza como naçom se encontra num momento crítico, embora isto logo nom se acompasse com umha prática à altura de termos como “emergência nacional”. A pouco que repasses o nosso passado olharás que assim foi em sucessivas etapas. No entanto, a diferença daquelas, sim penso que hoje a existência deste povo corre sério perigo e aproxima-se face um ponto de irreversibilidade em todos e cada um dos indicadores que colhamos como referência: língua, fortaleza das redes sociais -refiro-me às redes sociais no mundo real-, destruiçom do território, espanholizaçom a todos os níveis, empobrecimento, crack demográfico, etc. Provavelmente, da geraçom atual, e das duas ou três imediatas, dependa o futuro da nossa naçom. A responsabilidade, sem afám de alarmar, é importante e as posiçons duvitativas ou miopes em momentos assim pagam-se caras. Urge definir e desenvolver em simultáneo umha estratégia de construçom e de liberaçom nacional e social que, idealmente, deveria aglutinar todas as façons nacionalistas que nom tenham como máximo da sua atuaçom gerir umha administraçom outorgada.


Por outra parte, é óbvio que o Estado espanhol padece umha profunda crise, mas, com a correlaçom de forças que se dá no nosso país, e botando mao de poderosos mecanismos de propaganda e de coerçom maciça, é possível que se reconduza novamente, como em 1975-1978, em favor da oligarquia e contra o povo galego. Nós, como independentistas, temos hoje um horizonte amplo de possibilidades, porque a situaçom é favorável a tomadas rápidas de consciência, à auto-organizaçom, a socializar o nosso ideário e estratégia com um trabalho militante intenso. Toca trabalhar duro, organizar, evidenciar que o nosso objetivo estratégico independentista cobra hoje mais valor do que sempre, etc. Insuflar oxigénio na consciência nacional galega é essencial.


A respeito das prioridades, a nossa é a independência, mas é umha prioridade a meio ou longo prazo e cumpre olhada longa mas também, com realismo, passo curto. Neste sentido, os passos curtos som da nossa ótica, primeiro, fazer pivotar todo este processo sobre a auto-organizaçom e a construçom de poderes ou contra-poderes populares; segundo, fomentar a construçom nacional em todas as suas modalidades e o fortalecimento dumha consciencia nacional liberada de complexos e digna de tal nome; terceiro, perspetivar qualquer presença institucional, e a própria luita eleitoral, como alavancas ao serviço destas dinámicas e nunca como finalidades em si próprias; quarto, fomentar a formaçom política e ideológica: é mais positivo para o país, em termos estratégicos, dispor agora mesmo dum corpo de 5.000 militantes que sabem aonde querem ir que contar com 200.000 votos que nem sequer reconhecem com claridade a sua condiçom nacional, e quinto, construir o conflito com Espanha, que é a melhor escola possível de nacionalistas como demonstra a história. E quando falamos de conflito falamos dum pulso de projetos que se estabelece desde agora a todos os níveis e que a nossa sociedade vivencia como real e nom como representaçom ou elucubraçom a futuro...